terça-feira, 6 de outubro de 2026

8_0 | 43

 fica|em|traço|doce


do amor aos trapos em traço doce

colo de água marés de olhares

tatear no aroma que aquece

do amor à cor que estala na pele

sussurro no silêncio e o tempo vai

em palavras que trauteio nos ares

que o vento sopra e amanhece 

o batuque melódico desassossega

o rubor da manhã em correr sai

páginas pequeninas trapos de sóis 

água solta ondula em seios de arrepio

tamborilo no sal que fica no teu corpo

orografia de nuvens onde me penduro

nos recantos do meu sono por um fio

traço no caminho o aroma do querer

querer tanto uma manta de poesia

frio que aconchega no aperto seguro

sopro macio no instante de morrer

assim no amor aos trapos


eugeniohenrique 6/10/2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

traço_destraçado | 086

 soneira 

Vezes há que o branco em nada acontece

Vezes há que o silêncio se nutre desse nada

Sopro na folha escrita raios de vazio 

Penduro-me no desassossego que me apaga 

Olhar as nuvens no voo indo

Viro no pó da poeira que amolece

Escrevo texto de linhas secas nem sempre apetece

Tão cheias de tudo tenho-me no adágio 

No mar que borbulha em calma linhas de areia

Trago-me do naufrágio nadar atar

Desenhar no interstício da veia que leva

Respirar no vento sopro em páginas minhas

Tomo-me no fogo de cada traço na teia

Vezes há que não sei do desenho

Vezes há que o sono me adormece 

Tenho sono

eugeniohenrique 4/9/2026


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

r-a-m-o | 020

 Tracejado 


Deito em desassossego o corpo envelhece

Estremece na ideia de não ter que ser

Os perfumes atiçam memórias em terra batida

Jogos de bola e pouca comida

Ganapos aos molhos desatados na ermida

Tanques de roupa a lavar de bem e mal dizer

Sabão que vai ao fundo e vem em pau de pregos

Chafurdar em água de espuma palavras soltas 

Mamadeiras de historias no branco a corar

Trouchas penduradas em rodilhas pensantes

Trazem no peso da tagarelice a leveza dos egos

Solstício de poetas triturados por quem antes

Sempre achinelados no vento que sopra no ar

Arrumam fogueiras parideiras que sufocam no haver

no canto de capelas de alma pecadilhos de ser 

crer nas estampas que ilustram salas de cera 

os miúdos trauteiam fugas de amar 

Correrias de esconder querer saltar e não poder

Acertar histórias da plebe na crípta enfestada 

Santos e poderosos os putos invadem

Colarinhos engomados tocam os sinos estafados

Vozes de gente nada vagueiam no silêncio da manada

Gargalhar festim na festa que termina e vem

Palestras de sancho que o tempo dos alados esvazia 

calados na voz de pé descalço temia o temor cavado

Expurga tês lágrimas de sol que não vês

Jogo de bola na minha vez trapos empedrados

Traços na leveza poética de um brinquedo pintado

Sonho em esconderijo desarmado 

No tanque a trouxa pesa corada na dimensão da terra

Descalçada sulcos de tretas silabadas 

Gingam nas linhas que correm olhar a dentro

Quentura queimor de amar não sabendo

Mulheres tendo sabão no ser cosem odores de água

Nas fraldas dos remelados em resmas de sorte 

O peso da terra a rasteira o choro a vitória

Correr na falta inventar na pobreza 

Glória  ao pai que traz o brinquedo na certeza

Dos sorrisos em bolas de sabão 

Cartas cartas saco delas voam nas histórias

Selos de escrita que vai e volta de avião ou não

Tambor em rimas de fim de tarde timbram no papel

Que leva saudade pedidos de volta vem espero por ti

Agasalho em xaile cruzado fortaleza 

Tamancos em sapateado pele estaladiça

Tinta permanente escrita sem burrão

Elas duas esperam maridos que não voltam

Rezam promessas na ilusão 

Abades padres comadres na pobreza e na certeza

Palavreado em modo agreste linguagem postiça

Os ganapos gingam na eira feira freira de escola

As duas as outras moldam os corpos em panos descoloridos

Negros de nada que a saudade cola

Mulheres tricotam palavras ponto cruz 

Chulear salivas bochechos cantares 

Beijos pastosos abraços ruidosos quantos

Acordo apertado 


eugeniohenrique 12/8/2026


quarta-feira, 29 de julho de 2026

traço_destraçado | 085

risco(me)


Os meus desenhos não são para ser lidos

São para ser tidos 

Como quem tem desenhos no amor

Como quem tem amor por ter desenhos nesse amor

Os meus desenhos são meus e teus

Basta-me esse tudo.


eugeniohenrique 28/7/2026




quinta-feira, 23 de julho de 2026

traço_destraçado | 084

 Viageiro

 

Interrompo a batida do coração e viajo no branco do nada  

Em gargalhar a aurora veste a nuvem que desliza em canto

Vago na finura que o tempo desenha nos desenhos que ainda não

E acordo assim pesado de ter sido em sono a linha apagada


eugeniohenrique 23/7/2026


terça-feira, 14 de julho de 2026

traço_destraçado | 083

 estreito_engomado


Estreito-me nos estreitos 

Passo não passo passando estreitado

Apertado nas margens que apertam

Trilhos em traços no espaço

Fustigam o abraço estreito

Estoiram as mães de peito


Traços perdidos na secura

São luz medonha na tela pura

Empedrados intelectos estreitados

Zurram em montes deitados

Papéis fiados não fiando

Nada ficará cantando


Cimeiras de fados postiço 

Banquetes de poetas desfilando

Trapos de poesia quebraram

No estreito pensar necrosado

Ficam eles outros chorando

Galope na fuga atrapalhada

Gritos à molhada


Pum 


Sinto-me no medo deles outros

Putos que sacodem a pele do pó

Que da Terra tanta empoeirada

Salpicam saltitam de cara magoada 

Ei-los que gingam no poema 

Triturado no estreito que me estreita

O vento vagueia sonhos

Bandeiras em desfralde picotadas


Balas balões pum


O choro vai nas nuvens espuma 

Metralhado na inocência vai

No colo da mãe que espera 

Tontos na cegueira incólume 

Cegos por opção nação 

lixo glutão 

Certeiros na amargura razão

Desesperados nos cueiros do poder

Ter estreito ter 


Estreito- me no pensamento

Apertado em águas que ondulam

Tento em veneta atada

Desenhar linhas estreitas tantas

Rasuro brechas de luz apagada


Estreito-me 

eugeniohenrique 14/7/2026


sexta-feira, 10 de julho de 2026

r-a-m-o | 019

 Silêncio(S)


Que muros cresceram 

Que cantos ensurdeceram

Que tens no teu silêncio

Dizes dizendo 

Que alimento te cala

Que argumento te tem 

Olhos ausentes 

Vagueias no tempo 

Que sofrimento abala

Pedras soltas 

Trepadeiras espinhosas

Quanto de ti não chora

Quanto de ti embala frio

Giras no desenho 

Traço de ida e volta e ida

Foges não foges 

De onde vem essa nuvem

Quanto de ti tenho

Tanto de ser fugida

Abraços beijos urgem

As mãos crescem sem tocar

Dias a solo vergastado

Sonâmbulo no olhar 

Crias a plenitude 

Crias o nada amiúde

Que te traz 

No vaguear dos silêncios

Cinzentos os versos

Que não leio ainda

Das tuas mãos flores 

Que abrem aromas tristes

Da Terra o ser em estar

Revolvida penteada 

Brotam sabores de nada

Histórias à porta fechada

Arrumada que está 

A palavra agarrada

Profunda no vale

Onde caminha quente

Ardente sem espirro 

Ausente 

O céu será na luz 

Do nosso olhar apenas

Todo de todo não mente

Somos assim 

Somos no silêncio 

Escrevemos no amar


eugeniohenrique 10/7/2026